Em julho de 2026, atingimos mais uma conquista no combate à fome. A ONU anunciou que o Brasil registrou a menor taxa de insegurança alimentar severa desde o início da série histórica em 2000. O índice caiu de 6,6% (no triênio 2021/2023) para 0,6% da população (2023-2025), consolidando a saída do país do Mapa da Fome e indicando que cerca de 16,7 milhões de brasileiros deixaram a condição de privação alimentar grave no período.
A história do combate à fome no Brasil possui marcos bem definidos desde a publicação da obra “A Geografia da Fome” de Josué de Castro. O livro mostrou que a monocultura e o latifúndio geram a fome; e ao mesmo tempo rompeu com o tabu do silêncio sobre a miséria, ao destacar que o problema central é a distribuição da terra, que impede a produção local de alimentos.
Este diagnóstico foi feito há 80 anos, em meados do século XX. Após a redemocratização, nos anos 1990, a luta contra a fome ganha amplitude nacional e une a sociedade civil do país com o lançamento da Ação Cidadania contra a Fome e pela Vida, do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho. Mas foi somente neste século, precisamente em 2014 que o país saiu do Mapa da Fome pela primeira vez, graças ao Programa Bolsa família, ao apoio à agricultura familiar e a programas de alimentação escolar, além dos restaurantes populares, cozinhas comunitárias e bancos de alimentos.
E essas foram políticas públicas consolidadas por Patrus Ananias à frente do Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) nos dois primeiros governos do Presidente Lula. O nome de Patrus Ananias está gravado no centro das transformações mais profundas do país. Advogado, professor e homem público, Patrus foi o executor técnico e político das estratégias que permitiram ao Brasil vencer o flagelo da fome e da insegurança alimentar, levando para todo o país as ações implementadas quando foi prefeito em Belo Horizonte.
Com o desmonte do Estado a desestruturação dos programas sociais articulada pela extrema direita que chegou à Presidência após o golpe contra a Presidenta Dilma, o Brasil retornou ao Mapa da Fome, em julho de 2022. A redução e o enfraquecimento de programas como o Programa de Aquisição de Alimentos e estoques reguladores de comida, a extinção do Bolsa Família, a disparada nos preços de alimentos e o desemprego generalizado empurrou famílias para a miséria e para as ruas. Fatores agravados pelo contexto da pandemia da Covid.
Linha do Tempo
Em 2004, Patrus Ananias assumiu o recém-criado Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome com uma missão monumental pela frente. O grande desafio era unificar programas sociais que antes funcionavam de forma fragmentada e dar escala nacional às diretrizes do Fome Zero. Sob a sua liderança direta, nasceu o Bolsa Família, que vinculou a transferência direta de renda a condicionalidades rigorosas e transformadoras nas áreas de saúde e educação das crianças e adolescentes.
Para que o projeto funcionasse, o MDS estruturou o Cadastro Único, e promoveu a descentralização da execução das políticas públicas, integrando estados e municípios em uma rede de proteção sem precedentes no Sistema único de Assistência Social – Suas.
Em setembro de 2006, a Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional (Losan) foi sancionada. “Se antigamente nem era possível falar em fome no Brasil, hoje a constituição prevê o acesso à alimentação como um direito humano”, comemorou Patrus Ananias. “É o coroamento da ideia de Josué de Castro”.
E a Losan vai além: responsabiliza o poder público pelo acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, a toda “A proposta cria condições para que o combate à fome e a promoção da alimentação saudável, tornem-se compromisso permanentes do Estado Brasileiro, com participação da sociedade civil”, completou o ministro.
Outro grande marco de sua gestão foi o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que passou a comprar a produção da agricultura familiar para abastecer diretamente hospitais, creches e as redes de assistência social. No semiárido nordestino, investimentos viabilizaram a construção de milhares de cisternas de placas, uma tecnologia social simples e genial que garantiu água de consumo e produção para milhões de sertanejos. Somado a isso, o ministério espalhou restaurantes populares e cozinhas comunitárias pelas grandes periferias urbanas, transformando o acesso à alimentação saudável em um direito permanente.
Patrus sempre insistiu que o desenvolvimento econômico de um país não poderia ser desatrelado do bem-estar de sua população mais vulnerável. Para o ex-ministro, as perdas sociais decorrentes da negligência do Estado incidem diretamente sobre a soberania. Ele sempre alertou que o abandono dessas redes prejudicava os trabalhadores e a “gente que luta com dificuldade, os que têm fome e sede de justiça”, além de ferir a própria pátria ao impedir a consolidação de um projeto de nação focado na identidade e dignidade do seu povo.
Mas todas essas conquistas ainda não marcam o fim da fome no Brasil. Sair da lista mostra que a fome deixou de ser um problema estrutural em grande escala, mas o país ainda pode ter bolsões de pobreza ou pessoas em insegurança alimentar moderada.
Escrito por: Berenice Martins


